Aborto: entenda o que faz esse assunto ser tão polêmico

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Foto: Getty Images

É fato: todo mundo tem uma opinião sobre o aborto. Mas também é fato que esse assunto não diz respeito só ao que a gente pensa, né? Afinal, em 2018, o aborto foi a causa número 1 de mortes em todo o mundo. O assunto é amplo e envolve questões relacionadas à saúde da mulher, traumas e muitas outras coisas que devem ser colocadas na balança quando discutimos sobre ele. Por isso, conversamos com advogados, médicos, ativistas pró-aborto e até pastores para entender o que faz o aborto ser um assunto tão polêmico. Vem!

O aborto no Brasil

No Brasil, o aborto é ilegal. A não ser em casos de estupro, quando há risco para a mulher e se o feto é anencéfalo (que tem a ver com a má formação do cérebro). Em todos os outros casos, é considerado crime. Segundo o advogado Rafael Tadashi, “o aborto passou a ser discutido no Brasil nos anos 80, que continha em seu 5º artigo, a previsão de inviolabilidade da do direito à vida, que serviu de embasamento teórico e legal para os defensores da não legalização do aborto”. Porém, isso não impede que ele aconteça, já que, só em 2015, 500 mil mulheres interromperam sua gestão ilegalmente no país.

Aborto no Brasil

Fotomontagem: Fernanda Yamazato

Ainda que o aborto continue acontecendo ilegalmente, uma pesquisa feita pelo DataFolha revelou que 41% dos brasileiros são contra qualquer tipo de aborto. Ou seja, para 4 em cada 10 entrevistados, o aborto deve ser proibido até mesmo quando a mulher corre risco de vida ou tenha sido vítima de estupro.

No mundo

Embora no Brasil o tema ainda seja polêmico, no mundo, o aborto é comum (e legalizado) em muitos outros lugares, como Uruguai, CAnadá, Estados Unidos e países da Europa. Se contarmos os abortos legais e ilegais no mundo todo, são cerca de 56 milhões por ano! “No mundo, o aborto é discutido há muitas décadas, sendo a então União Soviética, em 1920, o primeiro país do mundo a legalizar o aborto”, conta Rafael.

A saúde da mulher

Miga, os números de mortes por aborto são assustadores: na África do Sul, por exemplo, 520 mulheres morrem a cada 100 mil abortos. Já na América Latina, são 30. Porém, os casos de morte só ocorrem em países em que a prática não é legalizada. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos EUA, país em que é legalizada, a mortalidade é de 0,7 a cada 100 mil procedimentos.

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É fato: mesmo sendo ilegal, o aborto continua acontecendo

E ele garante a saúde da mulher? “Sem dúvida o aborto pode garantir a saúde (tanto física quanto psíquica e emocional) das mulheres, além de dar a elas autonomia para decidir sobre o seu futuro e o futuro do seu filho. O Brasil é um país resistente a descriminalizar o aborto principalmente por conta da religião, que condena a prática em qualquer etapa da gestação e em qualquer circunstância. Os ministros do STF muito provavelmente já teriam desciminalizado o aborto se não houvesse uma pressão política tão forte dos evangélicos e católicos para manter a criminalização. E agora, com o conservadorismo político e religioso do governo Bolsonaro, a tendência é que a descriminalização não seja aprovada”, explica o advogado.

A religião

Você deve estar pensando: mas por que os cristãos condenam tanto o aborto? O Pastor Levi Araújo, da Igreja Batista de Água Branca, de São Paulo capital, explica: “De um modo geral, os seguidores de Jesus de Nazaré são sempre a favor da vida e defensores de toda a forma de vida”. Apesar disso, Levi confirma que o assunto precisa ser discutido: “O aborto é um assunto muito polêmico para muitas pessoas, sejam elas religiosas ou não, cristãs ou não. No caso dos cristãos, alguns são contra o aborto e a favor da pena de morte, o que penso ser uma gritante contradição e incoerência. Uma outra incongruência é condenar o aborto sem considerar e respeitar o importante aspecto de ser uma questão de saúde pública e desconsiderar as opiniões de quem pensa diferente e principalmente o que as mulheres pensam sobre o tema”.

Legalizar = aumentar?

Os casos de aborto vão aumentar se legalizar? Para a ginecologista Patrícia Bretz, sim. “Possivelmente aumentaria a procura pelo abortamento pela facilidade de acesso; em contrapartida, poderia reduzir o óbito de muitas mulheres”.

Os traumas

A decisão por abortar não é algo fácil. Ou seja, se uma mulher decidiu abortar, isso não significa que ela está feliz e tranquila com essa decisão. O aborto pode deixar marcas psicológicas e físicas em uma mulher. “Antes de fazer esse tipo de ação, a pessoa deve ter muita certeza do que está fazendo, pois, o ato pode gerar uma culpa muito grande, além de consequências físicas para o futuro. A culpa pode gerar muita tristeza, angústias, insatisfações, entre outros sentimentos negativos. O ideal é procurar um bom psicólogo, caso a pessoa se sinta mal”, explica o psicólogo Yuri Busin.

E quem não aborta? Assim como o aborto, seguir com uma gravidez indesejada pode trazer muitos traumas tanto para a mãe quanto para a criança. “Pode gerar uma depressão pós-parto, que é uma alteração no humor. Em que a mãe sentirá além de todos os sintomas da depressão, dificuldade em lidar com a criança, sem vontade de cuidar, amamentar, com raivas intensas com a criança, entre outros sintomas que irão prejudicar o recém-nascido”, explica o psicólogo.

A importância da legalização

O aborto é um tema tratado e discutido em diversos meios, mas, principalmente entre mulheres. Evellyn Lima, jornalista e mestre em mídia gênero e membro do Bruta Coletivo Feminista, explica que é importante entender o assunto como uma questão de saúde pública: “é algo que faz parte da realidade das mulheres do país. Em 2017, foram feitos 1.636 abortos legais. Esses são os números fornecidos pelo Ministério da Saúde, ou seja, os abortos legalizados, mas sabe-se que esse número é muito maior quando incluímos os abortos ilegais que é onde encontra-se o maior risco para a vida das mulheres”.

“Ao realizarem abortos ilegais, por ser financeiramente mais acessível, essas mulheres são submetidas a procedimentos com profissionais e em locais não adequados e acabam morrendo. Logo, o aborto ser ilegal não evita que essas mulheres o façam, mas se for legalizado pode evitar que elas morram”, finaliza Evellyn.

 


Complicado, né? Mas é importante entender que ser a favor do aborto não significa que você abortaria. É apenas pensar que, talvez, a legalização possa trazer saúde para mães e crianças, reduzindo risco e sofrimento.

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