pessoa mostra na mão o símbolo transgênero, que agrega os símbolos masculino, feminino e trans

Transgêneros: psicólogo ajuda a entender melhor

Muito tem se falado sobre os transgêneros, mas você sabe o que significa essa palavrinha difícil?

Na última quarta-feira (17/5) foi comemorado o Dia Internacional contra a Homofobia, que traz visibilidade para a luta por direitos humanos, diversidade sexual, o combate à violência e o preconceito. Essa luta é muito importante para gays, lésbicas, bissexuais e também para pessoas trans. Este último, muitas vezes é mal compreendido, então vamos entender um pouco mais sobre o assunto?

pessoa levanta em manifestação um cartaz que diz "Direitos Trans são direitos Humanos"

“Direitos Trans são direitos Humanos” – Foto: Shutterstock

Além de homens gays, mulheres lésbicas e pessoas bissexuais, que sofrem preconceito (homofobia) pela sua orientação sexual, existem também as pessoas transgêneros e/ou transexuais (transgêneros que passaram por cirurgia de mudança de sexo), que sofrem transfobia por não seguirem as definições sociais que são impostas pelo sexo com o qual nasceram. São preconceitos, opressões e orientações diferentes, por isso ganham nomes diferentes.

O tema trans nunca esteve tão evidente como atualmente, mas será que você realmente sabe o que os termos significam e pelo que passam as pessoas trans? Não? Então senta aí porque o assunto é complexo mas a tt conversou com  o psicólogo clínico e prof° da FASM Breno Rosostolato, que tirou algumas das nossas dúvidas mais comuns:

tt. Quem são, afinal, os transgêneros? 

B: Transgênero é um conceito dentro de uma realidade social em que as pessoas possuem gêneros (homens/masculino ou mulher/feminino). Dentro desse contexto, as pessoas estão acostumadas a se expressarem socialmente como mulher ou homem (expressão de gênero) e se comportarem como mulher ou homem (papel de gênero), a partir do que a sociedade impõe como “coisas de mulher” e “coisas de homem”, através das roupas que usa, a maneira de se comportar e aparentar.

Assim, reconhece-se como mulher ou homem a partir do comportamento e gostos (identidade de gênero), o que nem sempre vai de encontro ao gênero designado no nascimento, ou seja, atribuído ao órgão genital. Transgêneros são pessoas que possuem identidade, papel social ou expressão de gênero divergentes do que lhes é imposto pelas regras impostas (que são chamadas de cissexistas). O cissexismo é a noção de que só existe um tipo de morfologia (corpo) e que só se admite o binarismo sexual, homem ou mulher.

tt. Existe algum tipo de relação entre a mudança de gênero e de sexo com a orientação sexual da pessoa? Qual a diferença entre homofobia e transfobia?

B: Identidade de gênero é como a pessoa se sente e se reconhece no mundo. Como sua identidade é constituída e tem a ver com gênero. Orientação sexual é para como a pessoa direciona seu desejo e prazer, logo, uma mulher trans pode ser heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual. Isso vale para as outras definições de transgeneridade.

A homofobia é o preconceito associado ao desejo da pessoa por alguém do mesmo sexo. A transfobia é o preconceito relacionado a um corpo definido pelo genital, e que não corresponde a como a pessoa se sente.

tt. Em primeiro momento, como é possível identificar quando uma pessoa é transgênero? 

B: Acho que é indelicado e inapropriado especular sobre a vida de uma pessoa trans. Sobre seu corpo, prática sexual, a não ser que a pessoa te permita a isso e autorize. A sociedade possui uma concepção errônea de invadir a vida do transgênero e exotificá-lo. Ninguém fica perguntando sobre o meu corpo ou sobre minha sexualidade, portanto, a maneira de reconhecer um transgênero é deixar com que ele se diga e se autodenomine como um.

placa de banheiro que use a representação feminina com a masculina, dizendo "banheiros para humanos"

Foto: Shutterstock

tt. O que deve fazer, ou qual ajuda deve procurar uma pessoa que não está satisfeita com o seu gênero?

B: Em São Paulo, dois lugares de referência acolhem as pessoas trans e familiares. O primeiro é o Hospital das Clínicas. O outro, o mais recente inaugurado Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans.

O apoio é muito importante neste momento, assim como informação e conhecimento. Conhecer é a melhor maneira de combater o preconceito e acolher as pessoas trans. Participe de debates, discussões sobre as questões, dificuldades e conflitos que vivem outras pessoas na mesma situação. Não se sinta sozinha ou excluída. A transgeneridade é uma realidade histórica, verdadeira e legítima. Precisamos falar cada vez mais sobre o assunto.

tt. Você considera importante uma avaliação psicológica antes de se decidir por uma cirurgia de mudança de sexo? Por quê? 

B: Sim. É importante a avaliação, até porque, existem casos de pessoas que se arrependeram depois e o conflito torna-se ainda maior, mas é preciso elucidar uma questão importante. Muitas pessoas acham que todo transexual é aquele que vai realizar a cirurgia de transgenitalização, e não necessariamente.

Existe uma concepção equivocada que o transexual odeia seu genital, e não é verdade. Muitos convivem bem com o órgão genital. A transfobia é aquela que faz com que pessoas trans sejam constantemente indagadas pelo seu corpo, se fez ou não a cirurgia. São classificadas como pessoas que nasceram ‘no corpo errado’ ou suas identidades vistas como fetiches, e têm seu corpo exotificado.

Para as pessoas que querem fazer a cirurgia, a dura realidade do país não é nem um pouco confortável. Primeiro que existem poucos profissionais que entendem sobre transexualidade e sabem acolher esta demanda, além da dificuldade de encontrar profissionais adequados que sabem receitar hormônios corretos para cada corpo.

As pessoas trans aguardam anos na fila para realizarem a cirurgia, o que causa grande sofrimento. Necessitam de laudos para atestar quem de fato são. Acho um absurdo a pessoa precisar de tantas certificações e procedimentos para confirmar aquilo que já se sabe por ela há muito tempo. O Brasil precisa rever alguns procedimentos e protocolos. O transgênero que quer fazer a cirurgia não tem esse tempo todo.

tt. Existe uma idade mínima para o uso de hormônios ou até mesmo a realização da cirurgia? Com qual idade uma pessoa pode ter segurança e certeza sobre o seu papel de gênero?

B: O SUS reduziu a idade mínima na rede pública de 18 para 16 a idade para início do tratamento hormonal e psicológico. Para a cirurgia de redesignação, de 21 para 18 anos. O uso de hormônios é algo delicado e que necessita de atenção, cuidados e muita pesquisa e debates. Cada caso deve ser analisado com cautela.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) decidiu que adolescentes transexuais têm direito a realizar tratamento hormonal antes da puberdade, desde que possuam orientação médica e autorização dos responsáveis. Isso porque muitos jovens recorrem à tratamentos clandestinos por falta de uma legislação mais adequada.

pés entre símbolos feminino e masculino

“Somos desde a nossa existência colocados, enquadrados e enclausurados à estes papéis. Posturas esperadas pela sociedade o que engessa a identidade e cerceia a liberdade de ser aquilo que a pessoa quiser ser e como ser”, Breno Rosostolato – Foto: Shutterstock

Assunto difícil e com muitas palavrinhas difíceis, né miga? Mas é superimportante que a gente perca um pouquinho do nosso tempo tentando entender melhor esse fenômeno, afinal, é um debate bastante atual e necessário, uma vez que muitas pessoas sofrem e morrem por conta da falta de informação sobre o assunto. Então fica ligada e bora respeitar e tentar entender o próximo <3

O Dr. Breno ainda deixou uma dica super valiosa sobre como podemos tratar de maneira respeitosa uma pessoa trans, sem gerar desconforto ou constrangimento. “A melhor maneira de respeitar as identidades de cada um, até porque existe uma gama de identidades entre o conceito homem e mulher, é perguntar para a pessoa como ela se autodenomina”, aconselhou.

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